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setembro 13, 2025

Precisamos pedir licença? – H2FOZ

Por Claudio Siqueira

As artes plásticas brasileiras sofrem a mesma injustiça de crítica que a nossa culinária. O olhar dominante continua sendo eurocêntrico, e a régua de valor vem sempre de fora. Quando avaliam a cozinha ou a produção plástica brasileira, os críticos “sofisticados” classificam como “primitivo” aquilo que não se enquadra nos tratados e manuais das suas academias. Mas o que chamam de sofisticação, no fundo, não passa de pasteurização — uma repetição estilizada de tradições e tratados cristalizados (reprodução manual do que qualquer IA faz usando estatísticas).

O problema é que essa lógica não fica só lá fora. É aqui, dentro do Brasil, que ela encontra terreno. A pequena burguesia brasileira, sedenta por legitimação, adota sem filtro o discurso da crítica eurocêntrica. Resultado: despreza a brasilidade, relega a potência criativa da periferia e do povo ao rótulo de “folclore” ou “artesanato”, e só reconhece como arte aquilo que vem carimbado por curadores do norte global. É o velho complexo de (vira-lata) colônia: se eles dizem que é arte, então é arte!

Mas a contradição é gritante. A arte periférica brasileira, tantas vezes invisibilizada aqui, já é referência e matriz de escola lá fora. O concretismo e o neoconcretismo — de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape — são tratados como fundamentais em museus como MoMA e Tate. A música brasileira moldou o jazz contemporâneo universal, reinventou o pop europeu em grandes aspectos e exportou o funk carioca que é tocado até em festas de casamento na Turquia. E na culinária, aquilo que aqui é prato cotidiano — mandioca, açaí, tucupi — vira “novidade gourmet” nas cozinhas estreladas do hemisfério norte.

Ou seja: o que nasce da periferia brasileira já alimenta o mundo. É original, é sofisticado, é contemporâneo, é contemplado. O que falta é reconhecer isso sem precisar da chancela externa. O que falta é descolonizar o olhar.

Criar com nossas próprias referências, amar os nossos sabores, afirmar nossos traços, cores e sons sem pedir licença. Esse é o desafio — e também a libertação.

Para quem se interessar, referências sobre o tema:

1 – Concretismo e Neoconcretismo Brasileiro:

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