A região de tríplice fronteira da Argentina, Brasil e Paraguai está inserida no segundo maior corredor de tornados do mundo, ficando atrás apenas do verificado nos Estados Unidos. A constatação é antiga e foi feita por especialistas a partir de imagens colhidas entre 1965 e 1970.
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O corredor de tornados compreende o Norte da Argentina, o Paraguai, o Sul do Brasil e os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Em termos geográficos, a região sul-americana propensa aos fenômenos tem semelhanças com a norte-americana.
Porém, é três vezes menor, portanto tem menos incidência desse tipo de ocorrência, explica a professora Karin Linete Hornes, do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no livro Tornados no Brasil.
Foi justamente no Paraguai o mais recente episódio de tornados. O fenômeno climático ocorreu no domingo, 21, nos municípios de Santa Rita e Santa Rosa del Monday, a cerca de 60 quilômetros de Foz do Iguaçu.
Karin avalia, com base em imagens de vídeo, que possivelmente o tornado que atingiu o Paraguai se enquadre na categoria EF1, na Escala Fujita Aprimorada. A categoria EF1 corresponde arajadas de ventos de três segundos entre 138km/h e 177km/h, com a ocorrência de danos moderados.
Com categorias que variam de EF0 a EF5, a escala é usada para avaliar a intensidade dos tornados, baseando-se na destruição causada.
Outro evento recente ocorreu no município de Rio Bonito do Iguaçu, em 7 de novembro deste ano. Pelo menos 90% da cidade ficou praticamente destruída por um tornado da escala EF4 — o qual provoca danos devastadores com ventos entre 267km/h e 322km/h.
Em novembro de 2015, um tornado do tipo múltiplos vórtices, considerado raro e intenso, atingiu Marechal Cândido Rondon, a cerca de 175km de Foz do Iguaçu, e deixou a cidade em estado de calamidade.
Com 15 minutos de duração, o fenômeno percorreu 16km em um deslocamento por terra a aproximadamente 64km/h.
Em 20 de setembro de 1926, o próprio Paraguai também já registrou um tornado em Encarnación, fronteira com Posadas, na Argentina que destruiu a cidade, classificado na categoria EF4. Os ventos, de 250km/h, deixaram mais de 400 mortos.
O geólogo brasileiro Robert Dyer constatou que as maiores ocorrências de tornados na Tríplice Fronteira ocorreram entre julho de 1964 e julho de 1965. O cientistas identificou um rastro de tornado com 70km de extensão, entre Cascavel e Guaíra, com largura aproximada de 1,2km.

Em 25 anos, Foz registrou 126 eventos climáticos severos
A condição exige atenção da Defesa Civil dos municípios e conscientização por parte dos moradores visando a reforçar construções e a ficar cientes da situação.
Secretário da Coordenadoria de Defesa Civil de Foz do Iguaçu, Evaldo Guimarães diz que, do ano 2000 até hoje, a cidade contabilizou 126 situações que envolvem problemas relativos ao clima.
Neste ano, ocorreram 22. Desses, 11 foram eventos climáticos adversos referentes a chuvas, e houve oito situações com ventos fortes, dois alagamentos e uma chuva de granizo, no primeiro semestre, que atingiu a Vila A, KLP e Jardim Jupira.
Apesar de não ter registros oficiais de tornados, a cidade viveu situações caracterizadas como microexplosões, que se aproximam de tornados.
As microexplosões ocorreram neste ano nas regiões do Morumbi, Jardim Europa, especificamente na Avenida Alemanha, relata Guimarães. Na ocasião, 15 árvores caíram e um prédio inteiro e duas residências foram destelhados.
No centro de Foz do Iguaçu, na Rua Marechal Floriano esquina com a Avenida Jorge Schimmelpfeng, também ocorreu um episódio semelhante sobre o telhado de um prédio e a rede elétrica.
Guimarães explica que nos episódios de microexplosões há uma diferença de temperatura entre partes altas e baixas do ambiente, o que leva o vento a girar rapidamente, atingindo uma região específica.
Granizo deixou rastro de destruição no Porto Meira
Há pouco mais de dez anos, Foz do Iguaçu passou por um evento climático extremo. Uma chuva de granizo, na noite de 7 de setembro de 2015, que durou alguns minutos, destelhou pelo menos 95% das casas e afetou 57 mil pessoas na região do Porto Meira. Foram atingidas 15 mil residências.
Para Guimarães, o evento climático criou uma consciência histórica nas pessoas que passaram pela situação; algumas delas chegaram a ficar traumatizadas.
“Se você não sofre, não cria essa consciência. No Porto Meira, nós tivemos quatro vezes mais a população afetada em relação a Rio Bonito do Iguaçu”, ressalta.
O forte granizo também atingiu escolas, lojas e entidades, a exemplo do Lar dos Velhinhos. As imensas pedras de gelo deixaram enormes rombos em telhados e danificaram móveis e carros. A intempérie avançou para cidades vizinhas e causou danos em Puerto Iguazú (Argentina) e Presidente Franco (Paraguai), municípios limítrofes ao Porto Meira.

Câmeras gravaram tornado no Paraguai
Produtor rural no município de Santa Rosa del Monday, o brasileiro Márcio Giordani viu de perto o tornado que atingiu a região. As câmeras instaladas na sua propriedade gravaram com nitidez o funil que se formou.
Giordani informa que a região tem um histórico de ocorrência de vários temporais, que já destruíram casas e postes de luz.
Ele ainda conta que o setor do agronegócio é bastante criticado em momentos de tempestades, porque sempre se busca culpar alguém quando há tragédias. Porém, lembra-se do tornado que atingiu o Paraguai em 1926, quando o país ainda não era desmatado e não tinha represas ao modo das existentes hoje.

Como proteger-se?
A região é bastante propensa a tempestades severas, que incluem ventania, granizo e tornado. Quando se trata de desastres, o Paraná registra a maior quantidade de ocorrências de vendaval, revela a professora Karin.
A partir da constatação dos cientistas da condição vulnerável na qual está situada a Tríplice Fronteira, são esperadas ações do poder público e conscientização dos moradores.
Para a professora, é importante pensar sobre a residência, local de trabalho e trajeto de deslocamento. Os lugares mais seguros para ficar, em caso de eventos severos, são aqueles com melhor estrutura, com colunas, vigas e lajes — projetados para suportar ventos intensos.
Nos Estados Unidos, há a utilização de porão e safety room — uma área mais segura dentro da residência, para onde as pessoas costumam ir em caso de tempestades.
Karin considera fundamental que as cidades tenham estruturas que suportem os vendavais. “Atualmente, nós sofremos com danos relacionados a ventos.”
Ela menciona prejuízos causados, por exemplo, em escolas e prédios públicos, portanto é fundamental pensar em estruturas, principalmente as públicas, que suportem esse tipo de fenômeno, comum e natural na região, porém muitas vezes não se leva isso em consideração no momento de projetar e construir.
Evaldo Guimarães fala em construir casas resilientes, observando a tabela de ventos usada pela engenharia para fazer o cálculo das construções. Em Foz, realça, o vento médio é de 55km/h durante todo o ano. No Brasil, em algumas regiões, a velocidade fica entre 15km/h e 20km/h.
No caso de Foz do Iguaçu, para quem quer construir, Guimarães indica sempre ter um responsável técnico, seja engenheiro ou arquiteto, e não impermeabilizar todo o terreno, porque é preciso deixar uma área para a água penetrar no solo, conforme prevê o Código de Obras do município.

Ele também orienta o uso de zinco com isopor (telha-sanduíche ou aluzinco), ou seja, uma camada de zinco com isopor no meio, para proteger o telhado das frequentes chuvas de granizo que atingem a cidade. No entanto, alerta ser preciso fazer de forma adequada para o vento não levar.
A cobertura de platibanda, que envolve todo o imóvel e esconde o telhado, também ajuda na proteção contra ventania.
Em situação de dano na residência é necessário acionar a Defesa Civil. O documento no sistema estadual é cadastrado com base em quem aciona. Se o problema não é registrado, não há estatística nem histórico.
Para o arquiteto Fernando Carneiro Pires, é preciso oferecer os espaços coletivos de construção cotidiana na cidade para fazer planejamentos continuados e baseados na vivência das pessoas, além do serviço político e técnico.
“A integração maior da sociedade com a gestão de espaços privados é fundamental para a adaptação às mudanças climáticas”, frisa.
Para ele, os problemas que Foz do Iguaçu manifesta hoje não têm só a ver com o clima, mas com o resultado de uma estrutura social e econômica. Também é preciso valorizar mais dados meteorológicos, muitas vezes menos palpáveis.
Foz do Iguaçu conta atualmente com 15 abrigos da Defesa Civil cadastrados — escolas, ginásios, associação de moradores e igreja.

Categoria dos tornados
• EF0 (105km/h a 137km/h): danos leves, como galhos quebrados e danos em antenas de TV;
.• EF1 (138km/h a 177km/h): danos moderados; inclui destelhamentos, janelas quebradas e veículos empurrados para fora das estradas;
.• EF2 (178km/h a 217km/h): danos consideráveis; telhados arrancados, edificações rurais frágeis demolidas e objetos leves arremessados como mísseis;
.• EF3 (218km/h a 266km/h): danos severos; paredes de casas de madeira são arrancadas, vagões de trens tombam e carros são levantados do chão;
.• EF4 (267km/h a 322km/h): danos devastadores; casas de madeira são varridas, restando apenas pilhas de entulho, e destroços grandes se tornam mísseis perigosos;
.• EF5 (mais de 322km/h): danos incríveis; casas são lançadas com fundações, e estruturas de aço ou concreto sofrem danos extremos.
Fonte: Livro Tornados no Brasil
Diferença entre tornado e furacão
Furacão é uma área de baixa pressão, um ciclone que passa de 118km/h e pode durar vários dias. A maior parte dos furacões ocorre próximo a regiões costeiras, principalmente perto do Equador, em águas mais quentes.
Tornado é uma coluna de ar giratória que apresenta contato direto com uma nuvem cumulonimbus e a superfície terrestre. Tem giro fugaz de um vórtice de ar e duração geralmente muito curta, em média dez minutos,percorrendo cerca de sete quilômetros.
Telefone de emergência
199 — Defesa Civil