O posicionamento unilateral dos Estados Unidos no xadrez geopolítico reverbera na América Latina. Se por um lado o governo Donald Trump impôs sua força à Venezuela, por outro levou um bloco de países a alinhar-se com a China e fazer novas alianças.
A atual política norte-americana causa isolamento dos Estados Unidos e estimula o multilateralismo, que na concepção das relações internacionais se caracteriza pela cooperação e ação conjunta entre três ou mais países, considerando o direito internacional e o diálogo.
Para o diretor do Instituto Latino-Americano de Economia, Sociedade e Política (ILAESP) e professor de Relações Internacionais do Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL), da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Fábio Borges, o isolamento dos Estados Unidos de certo modo impulsionou movimentos de cooperação.
Entre os exemplos, estão os acordos selados entre o Mercosul e a União Europeia, entre a Índia e a União Europeia, e a abertura do diálogo envolvendo Canadá e China.
Borges lembra que os Estados Unidos impuseram uma hegemonia econômica e cultural em âmbito global na segunda metade do século 20, no entanto hoje, do ponto de vista da política, o país passou a ser um ator não confiável. A partir desse rearranjo geopolítico, o multilateralismo se fortalece.
Ele observa que a investida norte-americana contra a Venezuela e agora a Groenlândia representa uma ruptura da política externa dos Estados Unidos pós-Segunda Guerra Mundial, que também acaba fortalecendo o multilateralismo.

Para ele, a política externa de um país é uma política pública que precisa ser debatida no âmbito internacional. Programas de pós-graduação, a exemplo do PPG-ICAL, oportunizam que essas informações cheguem a mais pessoas.
No PPG-ICAL, frisa, a área de Relações Internacionais traz uma agenda de política externa com enfoque regional e não está centrada em estudos no norte global. “Se nós conseguirmos construir um regionalismo, ficamos menos vulneráveis”, afirma.
Na análise do diretor do ILAESP, a aproximação com a sociedade e o debate da política externa enquanto política pública são considerados estratégicos. Isso ocorre por meio de pesquisas, as quais resultam em dissertações, teses e presença no tema na mídia.

Especialista em Direito Internacional, Direitos Humanos e Estudos para a Paz e professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPG-RI) da Unila, Gustavo Oliveira Vieira avalia que a política de Donald Trump enfraquece os organismos internacionais e segue na contramão de uma ordem estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial.
Na análise dele, o modo de agir dos Estados Unidos, historicamente chamado de imperialismo, é o antônimo do que rege o Direito Internacional. “Ou há império ou há Direito Internacional”, realça.
Ele ressalta a importância de bases políticas regionais, e isso se reflete no investimento que o Brasil historicamente faz no Mercosul, considerado grande base da integração sul-americana, que também é a lógica da Unila. “Esse é o caminho que pode nos colocar em um novo rumo.”
Por outro lado, Vieira vê desalinhamentos internos, a exemplo do aumento de bases estrangeiras na região, que se traduzem pela presença do Reino Unido nas Malvinas e dos Estados Unidos no Paraguai.
Em especial em relação ao enfrentamento militar e ao narcoterrorismo, é preciso acompanhar com muita atenção, principalmente no que diz respeito à soberania, observa. As declarações estão em uma entrevista no Programa Que Pasa?, produzido pela Unila.
Foz concentra pesquisadores da integração latino-americana
Foz do Iguaçu é um epicentro de estudos da política multilateral. Na Unila, o tema está presente no PPG-ICAL e no PPG-RI.
Coordenadora do PPG-ICAL, a professora Patrícia Mechi entende o multilateralismo e a integração latino-americana como processos que vão além das relações formais entre Estados.
Segundo ela, a contribuição do programa no contexto do multilateralismo ocorre pela articulação entre formação acadêmica, produção de conhecimento e cooperação internacional. Entende-se assim a integração como uma prática concreta e cotidiana.
A professora destaca que o PPG-ICAL atua na formação de quadros para os Estados latino-americanos e para organismos internacionais, mas também aposta na formação crítica desses profissionais, capacitando-os a atuar e dialogar em diferentes realidades da região.
Por isso, há preocupação na formação de lideranças de comunidades, movimentos populares. Entre os exemplos, ela menciona o diálogo estreito com alguns interlocutores, como os que integram o Foro Social e Popular da Tríplice Fronteira.
O programa também tem vínculos com organizações de outras regiões da América Latina e Caribe. Recentemente, diz Patrícia, o PPG-ICAL foi procurado pela Escuela Política Virtual del Espacio Social y Político País Plurinacional para colaboração em atividades de formação.
Outra contribuição prática é com a RUIICAY (Red de Universidades Indígenas Interculturales y Comunitarias de Abya Yala). O fato de a Unila não ser uma universidade indígena não foi empecilho para estabelecer uma colaboração, via PPG-ICAL, com a formação de quadros com capacidade de atuação em contextos interculturais, institucionais e de cooperação regional.
Há também ações que se somam e refletem no multilateralismo, conforme a coordenadora, a exemplo da cooperação acadêmica com países-membros do BRICS — formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Indonésia.
O programa ainda estabeleceu uma cooperação com o Instituto da América Latina da Academia de Ciências da Rússia, que já resultou na realização de eventos conjuntos e no avanço da formalização de um protocolo de intenções.
Outra importante parceria foi feita com membros da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), com vizinhos do Cone Sul e de outras regiões, incluindo atividades conjuntas com o Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI) e publicações em parceria e com o CIALC-UNAM.
Coordenador do Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), que funciona como um banco do Mercosul, Luciano Wexell Severo avalia que o cenário atual requer mais programas de pós-graduação em integração regional.
“Desde 2015, a nossa região vive processos simultâneos e entrelaçados de fragmentação política e desintegração econômica. Os nossos países sofrem crescentes interferências de atores não regionais, nos campos militar, comercial, produtivo, financeiro e cultural”, cita.
Diante desse cenário, Severo considera ser crucial que haja mais pesquisadores estudando e promovendo a integração em todas as frentes, por meio de intercâmbios de conhecimento com os países vizinhos.
Para ele, a importância de programas como o PPG-ICAL será cada dia maior, sobretudo pela sua composição interdisciplinar, pela sua localização geográfica estratégica e pelas próprias peculiaridades da Unila.
Interdisciplinariedade e olhar global
Doutora em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília (UnB), mestra pelo PPG-ICAL e professora na Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) e na Universidade Peruana de Ciências Aplicadas (UPC), Shyrley Tatiana Peña Aymara comenta que universidades no mundo, a exemplo da Unila, com programas de pós-graduação, únicos e originais, a exemplo do ICAL, oferecem uma grande oportunidade de estudos e aprofundamento na questão da integração regional de forma transversal, interdisciplinar e com um olhar global.
“Esse cenário recria a construção de um mundo mais conectado, onde os Estados conseguem uma inserção mais plural e justa. Assim, o multilateralismo é fortalecido. No caso específico da região latino-americana, os processos integracionistas contribuem para um reconhecimento como povos entrelaçados na mesma história, cultura e desafios conjuntos”, salienta.
Pró-reitora de Extensão, Esporte e Cultura da Unicamp e professora associada do Instituto de Artes da mesma universidade, além de vice-coordenadora do Grupo de Estudios sobre Arte Público en Latinoamerica, Sylvia Furegatti acredita que as pesquisas desenvolvidas nas bordas das fronteiras simbólicas, culturais e geográficas, sistematizadas por programas como o PPG-ICAL, merecem ser valorizadas por sua consistente interlocução com outras instituições acadêmicas.
“As oportunidades de interface com representantes deste programa de pós-graduação que pudemos efetivar nos últimos anos foram diversas e particularmente efetivas para a consolidação de uma sinergia científica institucional”, revela.
Conforme a professora, a presença dos representantes do PPG-ICAL evidenciou a consistência de um trabalho acadêmico de alto nível e a formação de interlocutores qualificados.